NUNO CERA

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Vis-a-Vis

Nuno Crespo

Vis-à-vis de Nuno Cera é uma obra de difícil classificação se pensarmos não em termos da sua técnica — é indiscutivelmente um vídeo —, mas em termos do seu objecto. Por um lado corresponde à ideia de encomenda e, nesse sentido, pode ser entendido como registo da arquitectura no Centro Cultural de Belém, ou seja, tem uma relação objectiva e material com um referente real — o CCB —, mas a relação que as suas imagens estabelecem com esse referente não se caracteriza por nenhum tipo de literalidade mas por realizarem o esforço de encontrar na forma material e nos seus detalhes pontos de intensidade, vida e movimento. Um trabalho feito de múltiplos contrastes entre a terra e o mar, o interior e o exterior, a paisagem e a construção, o cheio e o vazio, o espaço e o tempo, a arquitectura e a música. Dualidades e contrastes estes que não são disjunções exclusivas, mas elementos que se sucedem e que fazem parte de uma mesma unidade material, estética e conceptual. E é esta ideia de todo que este díptico descreve.
Vis-a-Vis desenvolve-se em dois grande sentidos. Por um lado mostra que a arquitectura é indissociável de uma atmosfera própria e que é esse elemento inefável, imaterial e só indirectamente descritível o elemento central no modo como compreendemos e nos aproximamos de uma obra de arquitectura. Por outro lado a arquitectura surge não como um elemento com um fim em si mesmo, mas enquanto condição de possibilidade de acontecimentos para além de si, ou seja e usando a imagem do arquitecto Aldo Rossi, a arquitectura é um palco e o que acontece nesse palco é a vida. Uma condição que exige ao dispositivo material arquitectónico viver enquanto uma espécie de presença ausente, isto é, uma forma que deve ser notada mas cuja vocação é torna-se transparente em nome dos acontecimentos que possibilita. E são estes acontecimentos que constituem o fio condutor da narrativa do vídeo: a sua estrutura fragmentada não é tanto uma opção plástica, mas ditada pela heterogeneidade de elementos e de tempos de que se compõe o seu objecto.
Há um outro aspecto a realçar. É que este vídeo também é sobre a impossibilidade de filmar a música e o espaço. Uma negatividade transformada em elemento criativo e ponto de fertilidade. Os movimentos de aproximação e afastamento aos cantores, aos instrumentos e ao elementos plásticos, distanciam-nos de qualquer ideia abstracta de forma arquitectónica e estabelecem um confronto com a coisa real que é arquitectura, ou seja, o modo como é habitada. Por outra palavras, não se trata de explorar uma ideia abstracta de desenho, forma ou ideia autoral, mas mostrar como é através dos movimentos reais performados por corpos reais que a arquitectura pode ser definida e concretizada. E são estas ideia de actualidade e presença que Nuno Cera convoca como mecanismos de descoberta do lugar que é o CCB.