NUNO CERA

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A visibilidade do invisível

Luís Santiago Baptista

“O sentido é invisível, mas o invisível não e? o contraditório do visível: o visível possui, ele próprio, uma membrana invisível, e o invisível é a contrapartida secreta do visível.”

Maurice Merleau-Ponty. O Visivel e o Invisível, 1964

As aves de rapina olham para nós. O seu olhar é penetrante, imperscrutável e enigmático. No seu porte altivo, observam em silêncio, aguardam pacientemente. Chegará o momento de levantarem voo para desferir o ataque. Para já estão em espera, num misto de serenidade e expectativa. Sentimos o terror latente da espera, a tensão estática da ameaça. Ao olharmos estas imagens não conseguimos escapar ao fascínio da beleza sublime que delas transparece.
Nuno Cera configura assim o olhar para os “vestígios do real”. Quebra-nos a neutralidade do ponto de vista. As aves observam-nos condicionando o nosso olhar. Olhamos sob um estado de observação, uma visibilidade recíproca, incómoda, que convoca, num certo sentido, a visão panóptica teorizada por Michel Foucault acerca da lógica disciplinar da modernidade. As belas aves de rapina fitam-nos, tornando-nos simultaneamente observadores e observados. Entrecruzando os olhares do animal e do ser humano, instaura-se um jogo imprevisível entre o instinto e a inteligência, entre a intuição e a razão. Afinal, não esqueçamos, estas imagens realizaram-se para um outro trabalho recente, Tour d´Horizon, sob o signo de Amadeo de Souza-Cardoso.
E o que nos é dado a observar? O que vemos sob este estado de observação? Olhamos o invisível. A obra Viagem ao Invisível, apresentada em dois vídeos sob a vertical, regista a participação de Nuno Cera num projecto do mesmo nome, comissariado por mim e por Maria Rita Pais em Junho passado. Este compreendia um itinerário de três dias por um conjunto de edifícios e espaços em Portugal que manifestam uma situação de invisibilidade, seja pela natureza do seu programa ou uso, seja pela sua condição física e material, seja ainda pelas suas vicissitudes históricas ou sociais. O elenco passava, entre outros, por uma casa moderna privada, por um mosteiro de reclusão, por um estaleiro naval desactivado, por uma infra-estrutura militar de protecção de costa abandonada, por um pavilhão hospitalar arruinado, ou mesmo por uma pedreira no activo. O desafio estava assim lançado: tornar visível o invisível.
Mas a invisibilidade no espaço arquitectónico, urbano e territorial é, num certo sentido, de dupla natureza. É ao mesmo tempo uma invisibilidade física e simbólica, compreendendo não só o que nos escapa naquilo que vemos, mas igualmente aquilo que está fora do horizonte do visível. É conhecido o interesse profundo de Nuno Cera pela arquitectura e pela cidade. Este tem-se materializado em diversas colaborações com arquitectos, em especial com o malogrado Diogo Seixas Lopes, e na participação em eventos e publicações de arquitectura, como a Trienal de Arquitectura de Lisboa ou o J-A Jornal Arquitectos. Mas, como artista, podemos dizer que o olhar de Nuno Cera sobre o espaço arquitectónico e urbano é essencialmente crítico e metafórico. O seu interesse sempre esteve em explorar o que está para além da materialidade, mas que é manifestado pela presença física da arquitectura. Percebe-se que isto cedo o orientou para um trabalho sobre o invisível. A enunciação dos casos de estudo presentes na sua obra é por si só eloquente: a utopia desviante da unidade de habitação de Le Corbusier, a ruína assombrosa do imenso complexo estival nazi de Prora, a fúnebre Tomba da família Brion onde Carlo Scarpa desenharia o seu próprio túmulo, o silencioso Cemitério de Modena do melancólico Aldo Rossi, a promessa revolucionária tardia da Malagueira de Álvaro Siza, a visão megaestrutural abortada da Barbican, a distopia monumental do complexo habitacional Abraxas de Ricardo Boffill, ou mesmo a periferia anónima da área metropolitana de Lisboa. Em todos estes espaços afirmativos da modernidade, Nuno Cera explora a invisibilidade inerente às promessas fracassadas e sonhos insanos da arquitectura moderna. É esse espaço de tensão e conflito que a arquitectura comporta e manifesta que precisamente lhe interessa e que procura investigar. A Viagem ao Invisível inscreve-se pois nesta continuidade.
Mas o estatuto da invisibilidade na cultura contemporânea está hoje em questão. Vivemos num regime de visibilidade generalizada, onde o invisível, todo o exterior a esse regime, exerce um poderoso fascínio. Na verdade, dele parte esse ímpeto constante de trazer o invisível ao visível. A tentativa de eliminar todo o invisível será umas das marcas do nosso tempo. Pode-se confirmar isso no encantamento contemporâneo pela ruína, tanto dos vestígios da história como dos despojos da modernidade. Mas está igualmente presente na atracção pelos espaços do interdito e do intimo. A verdade é que a imagem tem sido o instrumento privilegiado através do qual todo esse deslumbramento pelo invisível se exorciza. Nessas imagens existe uma tendência de distanciamento do real pela exacerbação do efeito estético. Há uma normalização da imagem subtraída ao real, uma transfiguração do estado selvagem de invisibilidade para o seu oposto, o da visibilidade domesticada.
Mas como se capta o invisível? Como se pode trabalhá-lo perante este regime de visibilidade absoluta? Nuno Cera desde cedo percebeu esta armadilha da reificação do visível. Afasta-se resolutamente dos riscos de uma mera exposição do invisível. Ao longo da sua obra, sempre o procurou evitar, atravessando as imagens por deslocamentos narrativos ou cortes formais. Veja-se, a título de exemplo, a encenação ficcional de The Prora Complex de 2005 ou a coreografia performativa de Suspensão de 2012. As imagens de Nuno Cera não quebram o enigma do real, constroem-no e expõem-no.
Em Viagem ao Invisível, Nuno Cera impede deliberadamente o processo de sublimação da imagem. A exposição da invisibilidade é aqui um trabalho sobre a própria ideia de visibilidade. Não meramente um trazer à visibilidade, superando nesse acto a sua pretensa condição de invisibilidade, mas o tornar visível dessa condição, simultaneamente interiorizando-a e expondo-a. O recurso à imagem em movimento do filme em detrimento da imagem estática da fotografia torna-se aqui determinante. Mas Nuno Cera não recorre aqui, como nas obras anteriores, a estratégias ficcionais exteriores ou dispositivos formais elaborados. Não integra narrativas, performances e figurações, nem explora estratégias compositivas como o movimento de câmara, a tensão entre o preto-e-branco e a cor, etc. Diríamos que existe algo de novo nestes filmes, algo de mais directo e imediato. Em parte isto poderá explicar-se pelas circunstâncias e condicionalismos de execução do trabalho. Um itinerário muito intenso e preenchido com pouco tempo de paragem e reflexão. No entanto, a resposta de Nuno Cera é precisa e surpreendente. Inversamente ao que nos habituou, explora a invisibilidade reenviando as imagens para o mundo da vida. No limite, trata-se de dar a ver o invisível investindo no real. Um aparente paradoxo que Nuno Cera explora com grande sensibilidade e intencionalidade. O invisível não se capta, experiencia-se, parece dizer-nos com estes filmes.
Viagem ao Invisível estrutura-se em planos estáticos que registam a passagem do tempo. O ponto de vista é sempre imóvel, captado pelo aparelho técnico, colocado à altura do observador. A sequência de perspectivas, exteriores ou interiores, de fora para dentro ou de dentro para fora, mais distantes ou mais próximas, mais longas ou curtas, revela o dispositivo de montagem. A presença fixa da câmara no espaço, sem movimentos nem zooms, evidencia uma visão maquinal, abstracta e artificial. Olha-se o invisível através da neutralidade aparente do dispositivo técnico. Nuno Cera opera essencialmente no enquadramento, duração e sequência dos planos. Trabalha portanto com um campo reduzido, mas de forma plenamente intencional. A chave da obra está no colocar em tensão dessa artificialidade do ponto de vista com as manifestações que remetem para a própria experiência do real. Ao invés de acentuar a abstracção das imagens, Nuno Cera inscreve-as subtilmente no real. O movimento nos enquadramentos, que regista os elementos e o passar do tempo, capta a duração na experiência dos lugares. As figuras humanas, na verdade os participantes na viagem, atravessando fugazmente os planos, introduzem outra vida nestes espaços subtraídos à realidade quotidiana. A presença pontual do som oferece-nos, por momentos, a intensificação das qualidades ambientais dos espaços. Em suma, as imagens presentes em Viagem ao Invisível não querem esquecer nem se libertar do real. Estão implicadas nele. Na sua autonomia artística, Viagem ao Invisível apresenta a revelação da experiência dos espaços. Neles o invisível expressa-se e adensa-se, insistindo e persistindo na memória das obras. É neste sentido que o invisível habita o visível, iluminando estes “vestígios do real”.
As aves de rapina levantaram voo. Metamorfosearam-se em personagens de visita aos lugares. Numa estranha reversibilidade, a objectiva fixa da máquina capta os disparos dos seus olhares curiosos e precisos sobre o real...

Nuno Cera / Vestiges du Réel
Centre Culturel Portugais – Camões I.P., Luxemburgo, 2016