NUNO CERA

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L’Année Dernière

Luísa Santos

Quando entramos no espaço da exposição L’Année Dernière, de Nuno Cera (1972, Beja), entramos também em duas (na verdade, três) cidades: Paris, Tóquio e, muito brevemente, Banguecoque. L’Année Dernière vem, a uma primeira leitura, apresentar fragmentos de cidades como, regra geral, as pensamos: edifícios, ruas, estradas, que formam padrões e grelhas numa malha que muitas vezes nos escapa. Uma leitura atenta permite perceber que as imagens destes lugares apresentam-se como pequenas narrativas intrínsecas ao tempo, à memória e à identidade específicas que a construção de cada cidade implica por oposição a uma grande narrativa da cidade como um todo. Estas imagens apresentam-se assim como percepções - inerentemente subjectivas - do mundo.

Adoptando a linha de pensamento de Luhmann, da arte enquanto sistema social, a arte opera no domínio da percepção do real numa metodologia que consiste numa imersão no mundo, seguida de uma compreensão do mesmo a partir das suas próprias referências e, finalmente, numa emersão segundo uma determinada perspectiva que é, afinal, uma narrativa alternativa. E é precisamente neste modus operandi de fazer o que a arte faz de melhor – mostrar possibilidades alternativas do mundo em que vivemos - que o trabalho de Nuno Cera é absolutamente fascinante.

Na sua captação das cidades, Nuno Cera escolhe, regra geral, a tradição do preto e branco, com algumas excepções nas quais o uso da cor emerge com moderação, adoptando assim uma posição aparentemente objectiva. As composições são rigorosas e as fotografias não são encenadas nem digitalmente manipuladas. Contudo, em vez de quaisquer ligações às tradições de reportagem, Nuno Cera evita a fotografia instantânea e espontânea seleccionando, pelo contrário, com enorme cuidado e critério, os lugares e os pontos de vista a partir dos quais os fotografa. Nuno Cera observa a arquitectura como o lugar onde a sociedade expressa a sua história, cultura e identidade, desvendando o que os espaços públicos dizem das pessoas que os vivem.

Na exposição L’Année Dernière a relação em pares é determinante: a passagem do tempo realçada pelos contrastes entre dia e noite, entre claro e escuro, e entre luz e sombra; as imagens duplas dos mesmos lugares; o primeiro e o segundo plano nas imagens e no som; e as simetrias determinadas pelo desenho dos edifícios.

A primeira imagem que vemos quando entramos na exposição (Untitled - Le Grand Toscano, 2015), é de La Défense, suspensa numa estrutura de madeira, desenhada pela arquitecta Patrícia Barbas, que acentua a sua grelha e dimensão. La Défense é o maior centro financeiro de Paris e o maior centro empresarial da Europa, com 314.000m² ocupados por 72 edifícios de vidro e aço habitados diariamente por 150.000 trabalhadores. Tendo fotografado ao nível do chão, Nuno Cera adoptou o ponto de vista de quem anda na rua e olha para cima em direcção à fachada longa da Tour Areva, a torre de escritórios construída em 1974 e com 184 metros de altura. Se por um lado a imagem revela a escala desumana e absoluta deste lugar, por outro lado, privilegia o primeiro plano, da escultura Le Grand Toscano de Igor Mitoraj. Erguido junto à Tour Areva sob um plinto de granito, o busto de bronze surge na fotografia como um recorte que se destaca do segundo plano. Se não conhecermos a escultura, só poderemos adivinhar a continuação da sua forma mas o que é mais extraordinário na imagem da escultura Le Grand Toscano é o testemunho da passagem do tempo na representação fragmentada de um rosto anónimo.

O anonimato é um fenómeno da urbanização nas grandes cidades, consequência dos desenvolvimentos do capitalismo global. É irrefutável que assistimos a um apagamento das especificidades culturais e das identidades locais em grandes metrópoles, mas é igualmente inegável que as cidades ditas globais (como Paris e Tóquio) têm características singulares que as distinguem. No vídeo de cerca de 9 minutos com o título L’Année Dernière, numa referência ao filme de 1961 de Alain Resnais, Tóquio revela-se através do singular Edifício 1 do Tokyo Metropolitan, de Kenzo Tange. Este edifício com 243 metros de altura é talvez o mais icónico do complexo do Tokyo Metropolitan Government, construído num ímpeto tal de chegar ao céu que valeu-lhe a denominação de “Notre Dame de Tóquio”.

O texto que compõe a narrativa de L’Année Dernière (2016), escrito e contado por Herbert Wright, começa por acompanhar os primeiros planos da câmara ao nível da rua, de alguém que caminha por entre árvores e edifícios e olha e para cima, num tom descritivo próximo do jornalístico: “Um edifício enorme, moderno mas barroco. O Edifício 1 do Tokyo Metropolitan, conhecido como “Toch?”, foi criado pelo grande arquitecto Kenzo Tange.” O ponto de vista ao nível da rua revelado pelas imagens a preto e branco sobe a partir do momento em que vemos alguém entrar no edifício. Como se o tivéssemos seguido, de repente, passamos a ter o ponto de vista do alto e de dentro do Toch?, sempre com a voz do narrador a par dos sons que ocupam o espaço: os telefones que tocam, as vozes, os sons dos elevadores. Focando todos os elementos igualmente, os planos capturam todos os detalhes – as quadrículas exteriores e interiores, os reflexos de exterior que escondem interiores - com clareza e precisão. Depois de uma passagem pela Torre Shinjuku Park e por uma descrição de aspectos arquitectónicos do Toch?, a narrativa muda o tom jornalístico e assume um carácter subjectivo, a partir do qual começamos, inconscientemente, a tentar perceber onde estará o narrador: “Aqueles pratos de micro-ondas, o que há nas mensagens invisíveis que transportam? Estou aqui mas não as ouço.” O enigma acentua-se na segunda parte do vídeo, que surge a cores pouco saturadas, próximas do cinzento, com a descrição humanizada das esculturas que habitam o edifício: “Esta é a estátua de Keiko Amemiya, Aqui no Céu. Ela protege o seu olhar, como que da luz celeste, mas agora olha para cima, para o Toch?.” O vídeo termina com o culminar do tom misterioso do narrador na referência ao tempo e (ausência) de memória no filme de Resnais: “De Ikeda Munehiro Adão e Eva. Será que eles se lembram do ano passado, l'année dernière...?”

Tóquio volta a aparecer com as suas mega estruturas nas fotografias Untitled - Tokyo I (2016) e Untitled - Tokyo II (2016) nos pares exterior / interior; claro / escuro. Ambas marcadas fortemente por uma estrutura vertical (um relógio suspenso e um poste de electricidade) que se destaca de todas as outras linhas horizontais e verticais que formam cada imagem, parecem confrontar-se enquanto negativo e inverso uma da outra. Formalmente notáveis, estas duas fotografias estão impressas em UV sobre placa de zinco, uma técnica que, pela textura e grão acentuado, quase nos deixa a duvidar se estaremos perante uma fotografia ou um desenho minucioso a grafite.

Já nas últimas fotografias de Tóquio, L’Année Dernière I (2016) e L’Année Dernière II (2016) percebemos estar, de facto, perante imagens das imagens. Tratam-se de fotografias de frames do vídeo com o mesmo título. Este reconhecimento faz-se, mais do que pelo grão da imagem, essencialmente pela memória das imagens das esculturas apresentadas no vídeo, Aqui no Céu de Keiko Amemiya, e Epidaurus: Retrospect, de Toshio Yodoi. O recurso à memória no percurso da exposição acontece também quando voltamos a ver imagens de La Défense, nas fotografias Untitled - Paris, La Défense e Untitled - Paris, La Défense II I (2013) . Aqui, a Tour Areva volta a aparecer em segundo plano, com a árvore que se impõe no campo de visão, situação visual com a qual nos habituámos a conviver nas cidades, sem questionarmos o diálogo imposto pela transposição do que é do domínio natural para o domínio do construído.

A tensão entre o natural e o construído reaparecem no A Second Video (2016), um vídeo dividido em duas partes. Na primeira parte, assistimos a um testemunho contemporâneo da importância da parcimónia do uso da luz na cultura Japonesa enunciada por tantos autores, como Jun'ichir? Tanizaki no seu “Elogio da Sombra” (1933). A Maison Hermès, em Tóquio, da autoria de Renzo Piano tem por base conceptual as lâmpadas de papel Japonesas traduzidas numa grelha de 13.000 blocos de vidro translúcidos. Ao longo dos 2 minutos do filme dedicado à contemplação deste edifício, podemos perceber as variações de luz do dia reflectidas ao longo da fachada de vidro que se apresenta como que uma pele por sua vez reflectida na escultura metálica Hommage au Cosmos, de Susumu Shingu. Na segunda parte do vídeo, a passagem do tempo através da luz é ainda mais presente na aparente abstração dos reflexos do rio, em Banguecoque, do entardecer ao amanhecer. Igualmente notável é o facto de, mesmo tratando-se de uma imagem quase abstracta sabermos, pelos sons e pelos detritos, estar perante um rio inserido numa cidade.

Com um foco perseverante no ambiente arquitectónico, as fotografias e os vídeos de Nuno Cera transformam o ambiente que nos é familiar, do mundo urbano e globalizado, num mundo que nos é subtilmente estranho. L’Année Dernière coloca a passagem do tempo no centro da atenção, convidando-nos a passar tempo com as imagens, a observar e a questionar. Caber-nos-á agora construir as nossas percepções sobre o mundo em que vivemos.

Nuno Cera / L’Année Dernière
Galeria Miguel Nabinho