NUNO CERA

--------------------
Copyright 2017 © Nuno Cera
All Rights Reserved

FOLLOW ME:

VIMEO

Instagram

A COR DA TERRA

André Tavares

Le bleu du ciel, título do romance de estrada de Georges Bataille, conquistou o espírito de Aldo Rossi quando, em 1971, projectou a expansão do cemitério de Modena com Gianni Braghieri. O projecto começou na estrada para Istambul, num violento acidente de automóvel que conduziu Rossi a passar uma temporada hospitalizado. Ainda que existam desenhos anteriores que já prefiguravam a concepção adoptada no cemitério de San Cataldo, foi aí, na cama de um hospital, que a consciência da morte se tornou num argumento pungente para o arquitecto apresentar a sua obra como criação literária.
Para Rossi, a arquitectura é um facto científico, que se constitui ancorado na história das cidades, latente na memória das pedras que tanto foram marcadas pelas balas da estupidez humana como preservam os vestígios da nossa paixão. A cidade constrói-se a si própria porque é construída pelos homens, pelas suas ambições e reminiscências, pelos seus êxitos e fracassos. A arquitectura é um facto cultural que nasce nesse terreno de conflito, onde a experiência pessoal se confunde com o saber público. É essa a dimensão literária da arquitectura: as cidades transformam-se a partir de acções precisas de homens e mulheres que pensam e agem, decidem construir, e transformam. O que pode ser mais científico do que o turbilhão de emoções entre a inevitabilidade da mudança — da cidade ou do corpo — e a memória fugaz de uma alegria?
Construído como extensão do cemitério novecentista desenhado por Cesare Costa, o Cemitério de San Cataldo nunca foi terminado, ecoando a incompletude de todas as vidas. Essa incompletude acentua o seu carácter fragmentado, prismas e volumes que, frustrados, anseiam estabelecer diálogos entre si, como se houvesse possibilidade de construir uma cidade entre os restos mortais das vidas que a arquitectura acolhe.
As fotografias de Nuno Cera sublinham essa impossibilidade patética, e as suas sombras tratam com a mesma generosidade as imperfeições da terra, as folhas dos arbustos e das árvores que florescem, a argamassa que reveste as paredes, as texturas poéticas dos tijolos de Costa, o equilíbrio instável dos túmulos cujas fundações oscilam com as flutuações do chão e da memória.
Nas páginas deste fascículo ou nos espaços de San Cataldo podemos caminhar por entre a melancolia de um mundo que nunca será tão belo como o desejámos, mas poderá ser tão belo como o conseguirmos imaginar. A esperança desse mundo está acumulada em cada grão de luz visível nas imperfeições dos rebocos rudes de San Cataldo, captada em cada nuance de cinza destas imagens.

THE COLOUR OF THE EARTH

In 1971, Aldo Rossi’s spirit was captivated by Le bleu du ciel, a road novel by George Bataille. At the time, he was designing the expansion of Modena’s San Caltaldo Cemetery. The project began on the road to Istanbul, after a violent car accident forced Rossi to stay for a while in hospital. Although there are drawings previous to the crash that anticipate the concept of San Cataldo Cemetery, it was there, in the hospital bed, when the awareness of death provoked the architect to present his work as a literary creation.
For Rossi, architecture is a scientific fact anchored in a city’s history, latent in the stones’ memory, which is marked both by the bullets of human stupidity as with vestiges of our passions. The city builds itself because it is built by men and women, by human ambitions and reminiscences, by accomplishments and failures. Architecture is a cultural fact that is born of conflict, where personal experience enmeshes with common knowledge. This is the literary dimension of architecture: cities transform through the actions of men and women who think and act, who decide to build and transform. What can be more scientific than the turmoil of emotions amongst the inevitability of change — of the city or the body — and within the elusive memory of happiness?
Built as an extension of the 19th century cemetery designed by Cesare Costa, San Cataldo Cemetery remains unfinished, echoing the incompleteness of all lives. Such incompleteness is emphasized by its fragmented character: frustrated prisms and volumes that crave dialogue with each other, as if it were possible to build a city amongst the remains of the lives sheltered by architecture. Nuno Cera’s photographs emphasize this pathetic impossibility, and their shadows treat with the same generosity the imperfections of the earth, the flourishing bushes and tree leaves, the mortar lining the walls, the poetic textures of Costa’s bricks, and the unstable balance of the tombs whose foundations fluctuate between the earth and memory.
In these pages, and in San Cataldo’s spaces, we can walk between the melancholy of a world that will not be as beautiful as we want, but might be as beautiful as we can imagine. The hope for such a world accumulates in each grain of visible light cast in the rude imperfections of San Cataldo’s walls, captured in the grayish nuances of these images.