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O olhar que pensa e constrói

António Guerreiro

Estas fotos mostram que a tarefa do fotógrafo pode ser designada por uma metáfora arquitectónica: o olho constrói. Por seu lado, os edifícios de Álvaro Siza evocam a “definição” fotográfica, instauram a aura dos jogos da sombra e da luz, do visível e do seu reverso. Ambas, a obra do fotógrafo e a obra do arquitecto, resultam de um cálculo – um pensamento - do fototropismo. É neste cruzamento que reside o diálogo e a correspondência entre as fotografias de Nuno Cera e os edifícios de Álvaro Siza. Dizer que o olho do fotógrafo constrói significa que ele recorta formas no plano da realidade e dá-lhes a força abstracta das imagens. Essas formas são fragmentos, citações, objectos de um olhar analítico que decompõe tudo o que vê e toma posição, conquista espaço, isto é, exerce uma acção sobre a sua matéria, transformando-a. Em suma, estas fotografias penetram na linguagem do arquitecto, traduzindo-a no idioma do fotógrafo. Podem elas servir para “mostrar” a arquitectura de Álvaro Siza? Sim, se entendermos por “mostrar” dar a ver o que nela resiste a um olhar objectivo. A fotografia de arquitectura pode ser considerada um género. E podemos dizer que uma das convenções desse género é a ausência de sombra. Ora, as fotografias de Nuno Cera não seguem os preceitos de género, capturam a dimensão mais abstracta do objecto arquitectónico, ao ponto de dissolverem a sua objectividade e até a sua objectualidade. Introduzem um segundo grau, dão-nos a ver uma meta-arquitectura. Por isso, podemos dizer que elas têm um carácter ensaístico, no sentido em que o ensaio se define por uma experiência pessoal, baseada numa posição do Eu, do sujeito, em que este assume um saber, uma experiência e uma visão das coisas. Trata-se de um ensaio que nos diz que é possível redefinir a arquitectura de uma maneira completamente diferente daquela que recorre a fórmulas tradicionalmente usadas. Este ensaio fotográfico é um exercício de liberdade que “mostra” a arquitectura de Álvaro Siza como um signo, ou um símbolo. Como epígrafe do seu ensaio, se ele fosse escrito, Nuno Cera poderia ter colocado esta frase de Wittgenstein, que foi um filósofo-arquitecto: “Um edifício é um gesto”. A frase é tão enigmática que permitiu longas e variadas interpretações. Esta exposição, A Pressão da Luz, pode ser vista como um olhar fotográfico que supõe a possibilidade de capturar os gestos arquitectónicos de Álvaro Siza, como se eles formassem uma espécie de gramática. Não é seguro, é mesmo improvável, que um espectador consiga, diante dos mesmos edifícios, adoptar a mesma posição e capturar os mesmos gestos. É verdade que as fotografias dão a ver a arquitectura de Álvaro Siza, quase sob a forma de miniaturas ou fragmentos com um alto grau de concentração da sua linguagem idiomática, mas o que elas “pensam” e vêem ninguém, fazendo o mesmo percurso, conseguirá ver. Mas conseguirá entender o poder dos lugares criados pelo arquitecto.

The gaze that thinks and builds

These photographs show that the photographer’s task can be called an architectural metaphor: the eye builds. Álvaro Siza’s buildings, on the other hand, evoke the photographic “resolution”, they establish the aura in the play of shadow and light,?of the visible and of its reverse. Both the photographer’s work and the architect’s work are the product of calculating – thinking – phototropism. In this intersection lies the dialogue and the correspondence between the photographs of Nuno Cera?and the buildings of Álvaro Siza. To say that the photographer’s eye builds is to say that it cuts shapes in the real and gives them the abstract power of images. These forms are fragments, quotations, objects of an analytical gaze that breaks down all it sees and takes a viewpoint, conquers space, that is, it exerts an action on its matter, transforming it. In short, these photographs penetrate the language of the architect, translating it into the language of the photographer. Can they be of use to “show” Álvaro Siza’s architecture? Yes, if by “show” we mean that they reveal what in it resists an objective gaze. Architecture photography can be considered a genre. And it might be argued that one of the conventions of such genre is the absence of shadow. However, the photographs of Nuno Cera do not follow the precepts of genre, instead they capture the more abstract dimension of the architectural object, to the point of dissolving its objectivity and even its objectuality. They introduce a second layer, they uncover a meta-architecture. Therefore, it can be said that they have an essayistic character, in the sense that the essay is de ned by a personal experience, based on the viewpoint of the Self, of the subject, in which a knowledge, an experience, a perspective of things is assumed. This essay tells us that it is possible to rede ne architecture in a completely di erent way from the one that falls into the traditional formulas. This photographic essay is an exercise in freedom that “shows” the architecture of Álvaro Siza as a sign, or a symbol. As a heading to his essay, if it were a written one, Nuno Cera might have used this saying by Wittgenstein, who was a philosopher-architect: “A building is a gesture.” The expression is so inscrutable that it gave rise to extensive and varied interpretations. This exhibition, The Pressure of Light, can be seen as a photographic gaze that presumes the possibility of capturing Álvaro Siza’s architectural gestures, as if they formed a grammar of sorts. It is not certain, it is even unlikely, that a spectator could, when put before the same buildings, adopt the same viewpoint and capture the same gestures. It is true that the photographs reveal the architecture of Álvaro Siza almost in the form of miniatures or fragments with a high concentration level of his idiomatic language, but what they “think” and see nobody, walking in the same shoes, will be able to see. But they will be able to understand the strength of the places created by the architect.