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E todos reconhecemos que é necessário forçar muitas vezes as aparências para conseguir obter resultados no mundo da “verdade”.

FRAGMENTOS DE MATÉRIA - Eduardo Souto de Moura

André Tavares & Pedro Bandeira

Eduardo Souto de Moura sempre foi tímido a desenhar alçados. As suas obras partem de pressupostos que eludem a evidência de uma casa com portas e janelas. Os materiais de projeto são a construção, os lugares, os ambientes e, sobretudo, mais do que qualquer outra coisa, o pensamento. Cada projeto de Souto de Moura é um exercício de refinamento mental, uma equação complexa que se resolve com o pragmatismo da arquitetura e cujo resultado, após encontrada a solução, tem uma aparência óbvia. A casa não tem janelas, mas porque haveria de ter se não precisa? Mas as obras construídas apagam os caminhos que conduziram à solução da equação. As fotografias de Nuno Cera redescobrem a obra de Souto de Moura fragmentando-a em estilhaços incertos. Ao fazê-lo, invertem a visão canónica da obra de Souto de Moura, profusamente mediatizada. O caminho encontrado por Nuno Cera, procurando contornar a redundância de imagens que hoje nos assediam, abdica de uma leitura objetual da obra e da sua compreensão como um todo, em favor de uma leitura parcelar privilegiando a descoberta de “atmosferas” captadas em enquadramentos e pormenores precisos. Estes fragmentos, sem deixar de nos oferecer pistas para o reconhecimento dos respetivos edifícios, proporcionam duas narrativas complementares. A primeira, talvez mais evidente, é a que procura a síntese, a essência e, sem pudor da pátina, da humidade, de graffiti, não se inibe de excluir formas evidentes para alcançar esse objetivo. A segunda narrativa, complementar, remete-nos para uma herança de uma cultura visual fortemente influenciada pelo pensamento moderno, tal como os próprios fantasmas que residem na cabeça de Souto de Moura. Neste segundo contexto, ganham força o tema do reflexo e da transparência (raramente literal); o tema da luz e da sombra (a velha questão da forma); ou ainda o tema da artificialização da natureza (o romantismo na sua aparência). É na leitura sincronizada destas duas narrativas, que vão da especificidade de um edifício ao seu contexto mais universal, que reside um outro contraste: o caráter documental das imagens de Nuno Cera – associado à fidelidade do seu rigor técnico relativamente à realidade – não invalida a subjetividade do seu modo de ver, nem a subjetividade exponencial que chega até nós. Como sabemos, estas imagens nunca poderão ser “fotografias de arquitetura”, porque a arquitetura simplesmente não se permite fotografar e a sua essência resiste à representação bidimensional em papel. Como consequência, estas imagens apenas nos incitam a imaginar a arquitetura. Nuno Cera não subestima a inteligência do observador e oferece-nos narrativas possíveis e complexas. Prefere implicar o observador na construção do olhar e corre os mesmos riscos que corre o arquiteto quando entrega a obra ao real. Arquitetos e fotógrafos não constroem mais do que aparências onde outros sedimentarão as suas próprias verdades.

Pedro Bandeira & André Tavares